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sábado, 7 de janeiro de 2012

Infância

Carlos Drummond de Andrade

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.
Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Parece que foi ontem



Estava chegando do trabalho e há meio quarteirão pude notar uma aglomeração embaixo do prédio. Quando me aproximava vi que meu vizinho (que devia ter os seus 4 ou 5 anos quando eu tinha a sua idade) estava conversando com os seus amigos. Uma das meninas pediu para ele subir e pegar água.

Posso dizer que era tudo o que faltava pra remeter há uma época boa que não faz tanto tempo, mas também não foi ontem.

Lá se foi o tempo em que saiamos de prédio em prédio tocando os interfones toda quinta-feira pela manhã para ir à feira comer pastel. Éramos quase vinte. Foi nessa época que começamos a nos juntar no quiosque do condomínio para ensaiar passinhos de axé (o passado a gente não pode esconder), jogar baralho e contar piada.

As nossas noites na pracinha não eram muito diferentes. Passamos de prédio em prédio até todos estarmos sentados nos bancos à toa, apenas desfrutando da companhia uns dos outros, sem saber que nos preparávamos para quando a proximidade não fosse mais possível. E acreditem: eu podia acreditar que este dia não iria chegar.

Faculdade, trabalho, mudanças, namoro, filhos, família, dentre muitos outros fatores que todos sabem ser responsáveis por este distanciamento. O peso dos anos. O peso das responsabilidades.

Hoje da minha janela posso ver a pracinha vazia, porém cheia de histórias. O palco de grande parte dos meus conflitos juvenis hoje serve como guardião dos segredos de novos personagens. Assim como fora com aqueles que eram as fugirinhas locais na época em que eu era apenas um moleque.

Isso sem contar em tempos de mIRC, Malhação, Lazarentos e outras histórias, que renderiam muitos e muitos outros posts.

Mas escrevo pra dizer que naquela noite tive um único desejo: Pedir para que eles aproveitassem ao máximo, pois a gente nunca sabe até quando vai durar.